11 maio 2004

GOVERNO ACABAR� COM MONOPÓLIO NA INFORM�TICA


GOVERNO ACABAR� COM MONOPÓLIO NA INFORM�TICA


Em junho, cartilha vai determinar a troca do software da Microsoft pelo sistema livre Linux na administração federal

BRAS�LIA. Disposto a acabar com o monopólio no setor de informática, o governo oficializará, no mês que vem, sua preferência pelo software livre com licença pública na máquina administrativa. Hoje, o sistema mais conhecido é o Linux. Em junho, com a edição de uma cartilha, o governo vai transformar em norma a opção pelo código aberto - com acesso à fórmula do programa - na administração. Graças à mudança, o governo pretende economizar, a longo prazo, pelo menos R$ 80 milhões por ano, hoje gastos em royalties com uma única empresa, a Microsoft, líder no mercado.

Segundo o presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), Sérgio Amadeu da Silveira, haverá ainda uma economia de, no mínimo, R$ 800 por computador. Como existem 300 mil usuários na máquina administrativa e renovação constante de equipamento, o ganho poderá ser expressivo, mas não foi calculado.

- Existe uma reserva de mercado do software proprietário. Dizem que é normal. Não é normal. É ilógico - diz Amadeu.

A intenção do governo é concluir, até o fim do ano, a migração do sistema operacional em cinco ministérios: Ciência e Tecnologia, Cultura, Educação, Relações Exteriores e Minas e Energia. Também já começou um processo de transição nos Ministérios das Cidades e Comunicações. A partir dessa experiência, será possível dimensionar o impacto - incluindo a relação custo-benefício - da substituição em áreas com a magnitude do INSS, do Ministério do Trabalho e da Receita Federal.

A idéia, segundo confirmou o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, é trocar o sistema usado inclusive para concessão de carteiras de trabalho, salário-desemprego e Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS):

- Sempre fui a favor da democratização do sistema, mas isso requer estudo, cautela.

No Senado, o presidente José Sarney (PMDB-AP) também já decidiu adotar o sistema livre. Até o final deste mês, o Sistema de Processamento de Dados do Senado pretende finalizar a implantação do sistema de licença pública em seus computadores.

- O Prodasen vai dar o exemplo para mostrar que é possível mudar, sem medo, e vencer a maior resistência à mudança: a resistência cultural - disse o assistente do diretor da Central do Prodasen, José Osvaldo Câmara.

De forma didática, Amadeu compara informática à confeitaria. No software proprietário, a empresa que detém o copyright vende uma fatia do bolo. No software livre, o usuário conhece a receita (o código) e pode alterá-la a seu gosto. Como 80% do mercado é dominado pelo software proprietário e os fabricantes não informam a receita, os técnicos terão de trabalhar exaustivamente para garantir a leitura de todos os arquivos.

Por exemplo, após a migração, os novos sistemas livres terão de estar capacitados para permitir que um contribuinte faça sua declaração de renda num sistema e o documento seja visualizado e passível de alteração pelas máquinas do governo.

Parece fácil, mas cada arquivo pode ter um código específico, que vai exigir que os técnicos se dediquem a descobrir alternativas para poder trabalhar com eles. Hoje, por exemplo, num dos ministérios em processo de transição, o usuário final trabalha no editor de texto de um sistema e usa o e-mail de outro. Na hora de transportar de um para outro, nem sempre a leitura é possível. O texto acaba parecido com palavrão de história em quadrinho. Há também uma resistência cultural, já que os técnicos estão mais familiarizados com o sistema proprietário.

O ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, afirma que há uma decisão clara do governo de estimular a adoção do software livre no país. Indagado se a população poderia perder com essa migração em áreas mais sensíveis, como a Previdência ou Ministério do Trabalho, Campos respondeu:

- Essa transição é uma coisa segura. O que dizem é que deve ser feita com responsabilidade. Temos que fazer isso com tranqüilidade, com segurança, para isso não interrompa serviços que estão sendo prestados, sobretudo nas áreas estratégicas, essa é a preocupação.


Jornal: O GLOBO
Editoria: Economia
Tamanho: 680 palavras
Edição: 1
Página: 43
Coluna: Seção:
Caderno: Primeiro Caderno