01 junho 2005

Notícias


Nossa, estou tão cansada...
Estes dias não estamos tendo nada grande para fazer aqui no trabalho... mas tem aparecido um montão de coisinhas pequenas que, quando juntas, me deixam exausta. O telefone não pára e chega um email atrás do outro. :-(
Dei uma paradinha agora porque estou dependendo da ajuda de um colega para continuar meu trabalho... só que ele está enrolado com outras coisas. Bom, deu para perceber que estou sem assunto, né? :-)
Sendo assim, vou deixar aqui um texto da Paula Maia que adorei! Falei para ela que foi um dos textos mais lindos que já li, se não for o mais lindo! Espero que ela não se importe...

Sou rio

Um menino sentou em minha margem. Estava só. Pôs-se a me atirar pedrinhas. Retribuí o presente com um som doce e desenhos de círculos a partir do eixo por onde recebi a pedra, que não demorou a encontrar o fundo. Ele sorriu. Fui rio com uma pedra, um menino à margem, e um sorriso. Homens-meninos às vezes esquecem que adulteceram, e não resistem às pedrinhas, mesmo sem entender o porquê.

Sou apenas rio. Não prometo nada. Ou prometo. Prometo não ser indiferente aos assuntos do meu caminho.

Daniela veio com um segredo e uma flor. Uma flor qualquer, quase vulgar, me contou seus desejos, e me fez jurar segredo. Fui fiel. Fui rio com uma flor(margarida, eu acho), uma menina, e um segredo. Não prometi nada, sou rio. Devo fluir. Não posso ser fiel a desejos como os de Daniela. Tenho as pedras, folhas mortas e peixes.

Um homem de mãos ásperas, afundou uma tarrafa em meu leito, e me tomou cinco peixes. Família espiando da margem. Talvez tenha sido a cena mais bonita em que me doei paisagem. O som dos peixes se debatendo freneticamente. Estrubuchavam, morriam. Desejei ser um daqueles peixes. Morte para vida. Fui fiel ao homem, sua fome e dos seus.

Tenho uma infinidade de desejos e dores, mas fidelidade exclusiva não tenho. Tenho ainda os peixes (As ovinhas de Marta-Peixe já são peixinhos nadando em minhas águas), Daniela, uma flor, o menino, a pedra.

Da ponte ganhei um suicida. Supurou sua dor comigo. Teve a cabeça aberta por uma de minhas pedras com limo, seu coração já nem tinha música. Cantei sozinha. Seu sangue soluto se misturou ao meu corpo. Deslumbrei-me com o vermelho, e desejei sê-lo. Não pude ser fiel ao vermelho. Fui rio rosado carregando um corpo.

Sou rio. Escorro, sigo. Se tenho desejos e dores? Sim, tenho todos. Incoerentes, inconstantes, volúveis, infiéis, voláteis, paradoxais, análogos, duais. Por isso sou fiel apenas a um: ser rio. Não tenho promessas. Escorro, canto, sou líquida. Ou melhor, tenho sim uma pequena grande fortuna. Prometo um som doce e desenhos de círculos se por acaso você não resistir às pedrinhas do caminho.

Paula Maia

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