26 junho 2006

A ONU e a Copa do Mundo

New York - ONUQuando eu tive a oportunidade de visitar a ONU, em Nova York, eu fiquei super fã do trabalho deles. É claro que eles não conseguem resolver tudo com a velocidade necessária, mas eles fazem muita coisa pelo mundo e principalmente pelas pessoas. Afinal, eles representam todas as nações e é difícil conciliar o interesse de todos, sem falar na burocracia que isto gera. Mas, devagar eles estão conseguindo.
Uma vergonha pra nós, brasileiros, é que nosso exército e polícias estão sendo investigados pela ONU por crimes de tortura e pelo fato do número enorme de mortos em serviço. Uma coisa que li também é que as famílias que denunciaram tais crimes de tortura vivem sob constante ameaça. Hoje mesmo saiu uma reportagem no O Globo onde um rapaz foi mantido algemado junto a um cão durante um mês. Ele não podia se mexer, sob o risco de ser atacado pelo animal. Mesmo assim, o rapaz respondeu processo por deserção e ficou preso por 90 dias. Acontece cada coisa neste nosso país que, às vezes, é difícil de acreditar. O pior é que os militares consideram este tipo de coisa perfeitamente normal.
Mudando um pouco de assunto, no dia 09 de junho foi publicado na Folha de São Paulo um artigo escrito pelo Kofi Annan, secretário-geral da ONU, sobre a relação da ONU com a Copa do Mundo. Eu achei muito interessante e bonito. Vale a pena ler:

Como invejamos a Copa do Mundo - KOFI ANNAN

VOCÊ PODE ESTAR se perguntando por que o secretário-geral das Nações Unidas está escrevendo sobre futebol. Mas a Copa do Mundo faz com que nós, nas Nações Unidas, morramos de inveja. Como o único jogo realmente global, praticado em todos os países, por todas as raças e religiões, é um dos poucos fenômenos tão universais quanto as Nações Unidas. Podemos até dizer que é ainda mais universal. A Fifa tem 207 membros. Nós temos 191.
Mas existem outros motivos de inveja. Primeiro, a Copa do Mundo é um evento no qual todos conhecem seus times e o que eles fizeram pra chegar até lá. Todo mundo sabe quem fez um gol e como e quando ele foi feito, conhece quem perdeu a oportunidade de fazê-lo e lembra quem conseguiu evitar um gol de pênalti.
Gostaria que tivéssemos mais competições desse tipo na família das nações. Países competindo pela melhor posição na escala de respeito aos direitos humanos, um tentando superar o outro nas taxas de sobrevivência infantil ou de ingresso no ensino médio. Estados fazendo performances para o mundo todo assistir. Governos sendo parabenizados pelas ações que levaram àquele resultado.
Segundo, a Copa do Mundo é um evento sobre o qual todo o planeta adora conversar. Discutir sobre o que seu time fez de certo e o que podia ter sido feito diferente, sem mencionar o que o time adversário fez ou deixou de fazer. Pessoas sentadas em cafés em qualquer lugar, de Buenos Aires a Pequim, debatem intensamente os melhores momentos dos jogos, revelam um profundo conhecimento não só dos seus times, mas dos de outros países e falam no assunto tanto com clareza quanto com paixão.
Normalmente, adolescentes calados tornam-se, de repente, eloqüentes, confiantes e incríveis especialistas em análise. Eu gostaria que tivéssemos mais desse tipo de conversa mundo afora. Cidadãos engajados na discussão de como seu país poderia ter melhores desempenhos no Índice de Desenvolvimento Humano, na redução de emissões de carbono ou de novas infecções de HIV.
Terceiro, a Copa do Mundo é um evento que acontece num campo igualitário, onde todos os países têm a chance de participar em termos equitativos. Somente duas qualidades importam nesse jogo: talento e trabalho em equipe. Eu gostaria que tivéssemos mais dessa homogeneidade na arena global. Negociações livres e justas, sem a interferência de subsídios, barreiras ou tarifas. Todos os países tendo chances reais de desenvolver seus pontos fortes no palco mundial.
Quarto, a Copa do Mundo é um evento que ilustra bem os benefícios da interação entre pessoas e países.
Cada vez mais seleções nacionais contratam técnicos de outros países, que trazem novas formas de se pensar e jogar. O mesmo vale para os jogadores das mais diversas nacionalidades que, entre as Copas do Mundo, representam clubes em países distantes dos seus. Eles trazem novos atributos para seus novos times, crescem com a experiência e são capazes de contribuir ainda mais para seu país quando a ele retornam.
No processo, eles muitas vezes se tornam heróis nos países estrangeiros, ajudando a abrir corações e mentes fechadas. Eu gostaria que fosse igualmente simples para todos enxergarem que a migração humana em geral pode criar ganhos triplos para migrantes, para seus países de origem e para as sociedades que os recebem.
Esses migrantes não só constroem uma vida melhor para si mesmos e para suas famílias, mas também são agentes de desenvolvimento econômico, social e cultural nos países em que vão trabalhar e em seus Estados nativos. Quando retornam, inspiram os que ficaram com suas novas idéias e seus novos conhecimentos.
Para qualquer país, jogar na Copa do Mundo é uma questão de profundo orgulho nacional. Para países classificados pela primeira vez, como Gana, onde nasci, é uma questão de honra. Para aqueles que estão participando após anos de dificuldades, como Angola, promove uma renovação do espírito nacional. E para aqueles que estão divididos por conflitos, como a Costa do Marfim -cujo time na Copa é um único e poderoso símbolo de unidade nacional- inspira a esperança no renascimento nacional. Mas talvez o que nós mais invejamos na ONU é que a Copa do Mundo é um evento no qual vemos realmente os gols serem alcançados. E não estou falando somente dos gols que um país marca. Também estou me referindo ao gol mais importante de todos: estar representado lá, fazendo parte da família das nações e celebrando a humanidade comum a todos.
Vou tentar lembrar disso quando Gana jogar contra a Itália no dia 12 de junho. Mas claro, não posso prometer que vou ter sucesso.
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KOFI ANNAN , 68, economista ganês, é secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas)
Folha de São Paulo, sexta-feira, 09 de junho de 2006
TENDÊNCIAS/DEBATES


2 comentários:

  1. KOFI ANNAN disse tudo aquilo que penso sobre o mundial. Evento de paz e integração entre as nações, não importa quantos gols fazem, o importante é estarem pessoas do mundo todo interagindo por um motivo de paz.
    Adorei!! Beijus

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  2. Muito legal esse texto. A Malla indicou. Meu sonho é trabalhar na ONU, desde que eu era bandeirante e vendia cartões de Natal da UNICEF.

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